Mato Grosso do Sul registra 1,2 mil atendimentos por queimadas urbanas em sete meses

Estiagem, baixa umidade e fumaça aumentam os riscos à saúde; Campo Grande concentra 500 ocorrências no período

Mato Grosso do Sul registra 1,2 mil atendimentos por queimadas urbanas em sete meses

Foto: Divulgação

Mato Grosso do Sul registrou 1.200 atendimentos relacionados a queimadas urbanas entre janeiro e julho de 2026, segundo dados do Corpo de Bombeiros Militar. O número representa uma média de aproximadamente 5,7 ocorrências por dia no Estado.

Em Campo Grande, foram contabilizados 500 atendimentos no mesmo período, o equivalente a cerca de 2,4 ocorrências diariamente. O cenário preocupa ainda mais durante o período de estiagem, quando a baixa umidade do ar favorece a propagação do fogo e contribui para a concentração de fumaça na atmosfera.

Embora os números de 2026 ainda sejam parciais, os registros mostram que as queimadas urbanas são um problema recorrente no Estado. Em todo o ano de 2025, foram 3.550 atendimentos relacionados a esse tipo de ocorrência. Já em 2024, o Corpo de Bombeiros contabilizou 4.452 atendimentos.

Fogo em terrenos preocupa moradores

Um dos casos mais recentes ocorreu no mês passado, no Jardim Los Angeles, em Campo Grande. Um incêndio atingiu um terreno baldio e fez com que fumaça e fuligem se espalhassem pelas residências próximas.

O servidor público Diego Antunes, de 39 anos, contou que acordou sufocado pela fumaça e, ao deixar a residência, percebeu que a vegetação estava em chamas. Segundo ele, episódios semelhantes são registrados todos os anos no bairro, e moradores suspeitam que alguns incêndios sejam provocados de maneira intencional para realizar a limpeza irregular de terrenos.

Além dos atendimentos realizados pelos bombeiros, as queimadas também geram reclamações e denúncias aos órgãos públicos.

Somente em 2025, a Guarda Civil Metropolitana recebeu 834 denúncias relacionadas a queimadas em Campo Grande. No mesmo período, a Ouvidoria-Geral do Município registrou outras 340 reclamações envolvendo o uso irregular do fogo para a limpeza de terrenos baldios.

Fumaça invade casas e afeta moradores

A presença constante de fumaça também é motivo de preocupação para quem vive próximo a áreas onde ocorrem queimadas.

No Bairro Nova Lima, em Campo Grande, a moradora Maria José Rodrigues relata que os problemas se tornam mais frequentes durante o período de estiagem, principalmente por causa das dificuldades respiratórias.

Segundo ela, pessoas desconhecidas costumam colocar fogo em um terreno localizado próximo à residência.

A fumaça, conforme o relato da moradora, invade as casas, provoca ardência nos olhos e agrava os problemas respiratórios. Mesmo mantendo portas e janelas fechadas, o cheiro de queimado permanece no ambiente durante horas.

Em Sidrolândia, a situação também preocupa moradores. Nazareth Gonçalves, residente no Bairro Campina Ypacarai, afirma que as queimadas são recorrentes todos os anos.

Além do desconforto provocado pela fumaça, ela relata o temor de que as chamas se espalhem e atinjam imóveis próximos.

Queimadas prejudicam qualidade do ar

O problema vai além dos danos provocados diretamente pelo fogo. A fumaça das queimadas contém partículas finas e gases tóxicos que podem comprometer a qualidade do ar e irritar os olhos e o sistema respiratório.

A exposição à fumaça pode agravar problemas como asma, bronquite, pneumonia e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Crianças, idosos, gestantes e pessoas que já possuem doenças crônicas estão entre os grupos que merecem maior atenção.

Dados do boletim epidemiológico da Secretaria de Estado de Saúde (SES) mostram que, até a Semana Epidemiológica 15 de 2026, Mato Grosso do Sul havia registrado 1.776 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e 133 mortes.

A Secretaria alerta que, durante o período de estiagem, a combinação entre a baixa umidade do ar e o aumento das queimadas pode piorar a qualidade do ar e contribuir para o aumento de problemas respiratórios e da procura por atendimento médico.

Queimar lixo ou limpar terreno com fogo pode gerar multa e prisão

O Corpo de Bombeiros orienta a população a não utilizar fogo para limpar terrenos ou eliminar folhas, galhos e lixo. Caso seja identificado um princípio de incêndio, a recomendação é acionar imediatamente o 193.

A prática de provocar queimadas pode configurar crime ambiental, conforme a Lei Federal nº 9.605/1998. Dependendo das circunstâncias, a legislação prevê pena de até quatro anos de prisão, além de multa.

Em Campo Grande, quem realiza queimadas também pode sofrer sanções administrativas. Conforme as informações divulgadas, as multas podem chegar a R$ 11.590,37 nos casos de queima de resíduos a céu aberto e a R$ 6.781 para queimadas em terrenos baldios ou quintais.

A orientação é que resíduos de poda, folhas, galhos e outros materiais sejam destinados de maneira adequada, sem a utilização do fogo.

Agosto Alaranjado reforça prevenção

Em Campo Grande, as ações de conscientização são reforçadas durante a campanha “Diga Não às Queimadas Urbanas – Agosto Alaranjado 2026”, que busca alertar a população sobre os riscos provocados pelo uso irregular do fogo durante o período de estiagem.

No âmbito estadual, a Lei nº 4.555/2014 instituiu a Semana Estadual de Conscientização, Prevenção e Combate à Prática de Queimadas Urbanas. A mobilização ocorre anualmente na semana que compreende o dia 12 de agosto, com atividades educativas e ações voltadas à prevenção.

Com o período de seca e baixa umidade, os órgãos públicos reforçam que a prevenção é fundamental. Além de evitar incêndios que podem atingir imóveis e áreas de vegetação, impedir queimadas urbanas também contribui para reduzir a quantidade de fumaça no ar e proteger principalmente as pessoas mais vulneráveis aos problemas respiratórios.

Maria Pereira

Maria Pereira

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