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Os resultados mais recentes divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam para um cenário positivo para a produção agropecuária brasileira e, especialmente, para Mato Grosso do Sul. O avanço da safra aumenta a oferta de commodities, fortalece as exportações e movimenta uma extensa cadeia econômica que vai muito além das propriedades rurais.
De acordo com o economista Sergio da Rocha Bastos, o aumento da produção contribui diretamente para o comércio exterior brasileiro. Com maior disponibilidade de soja, milho, cana-de-açúcar e outros produtos, o país amplia sua capacidade de exportação e melhora as condições para realizar trocas comerciais com outras nações.
Para o produtor rural, uma produção maior por hectare também pode representar aumento da margem de lucro, desde que os custos sejam controlados. Com melhores resultados financeiros, o agricultor ganha condições para reinvestir em máquinas, equipamentos, tecnologia e novas técnicas capazes de elevar ainda mais a produtividade.
O impacto também chega às cidades e aos demais setores da economia. O agronegócio movimenta empresas de fertilizantes, defensivos agrícolas, máquinas e equipamentos, além de gerar demanda por mão de obra, serviços de consultoria, assistência técnica, acompanhamento de safras e tecnologia.
A expansão da produção industrial é outro reflexo desse cenário. Unidades de processamento de soja e milho, além da cadeia sucroenergética, vêm ampliando suas atividades. A produção de etanol de cana e de milho também cria novas oportunidades e agrega diferentes segmentos à cadeia agropecuária.
Esse movimento, segundo o economista, forma uma espécie de corrente positiva: o crescimento da produção gera mais matéria-prima para a indústria, que por sua vez demanda serviços, tecnologia, manutenção, logística e profissionais especializados.
Apesar dos números positivos, existe uma contradição entre a elevada produtividade dentro das propriedades e as dificuldades enfrentadas pelo produtor para transformar esse desempenho em ganhos financeiros. Segundo Sergio da Rocha Bastos, o campo brasileiro apresenta elevada eficiência, mas os custos externos à porteira continuam sendo um dos principais obstáculos.
Entre os fatores que pressionam a atividade estão as taxas de juros, os preços dos insumos, combustíveis e os custos logísticos. O financiamento da safra, por exemplo, pode representar uma despesa significativa para o produtor em um cenário de juros elevados.
Os fertilizantes também continuam sendo motivo de preocupação. As mudanças no mercado internacional após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia contribuíram para elevar os preços de diversos insumos utilizados na produção agrícola.
O combustível é outro componente importante. Variações no preço do petróleo e de seus derivados afetam diretamente o custo das operações no campo e do transporte da produção. O problema, segundo o economista, não está apenas nas oscilações, mas principalmente quando os preços permanecem elevados por períodos prolongados, contaminando toda a cadeia produtiva.
A logística é mais um desafio. O transporte da produção até os grandes portos brasileiros, como Santos e Paranaguá, envolve custos que reduzem parte da competitividade conquistada dentro das propriedades.
Nesse contexto, a Rota Bioceânica aparece como uma das principais perspectivas para melhorar a infraestrutura de transporte de Mato Grosso do Sul e do Brasil. O corredor pretende conectar a região de Campo Grande ao município de Porto Murtinho e, a partir dali, atravessar o Paraguai e o norte da Argentina, passando pela Cordilheira dos Andes até alcançar os portos chilenos no Oceano Pacífico.
A nova rota poderá reduzir o tempo necessário para que produtos brasileiros cheguem a importantes mercados consumidores da Ásia. A estimativa apresentada pelo economista é de uma redução de aproximadamente 17 dias no trajeto, além da possibilidade de diminuição dos custos de frete.
A via também poderá funcionar nos dois sentidos. Enquanto commodities brasileiras seriam destinadas aos mercados internacionais, veículos que retornarem ao país poderão transportar insumos produzidos em outros países, aumentando a oferta e potencialmente contribuindo para reduzir custos de produtos utilizados pela agricultura.
A expectativa é que os benefícios econômicos da Rota Bioceânica se tornem mais evidentes a partir de 2027 e 2028, com a utilização plena do corredor.
Outro fator que interfere no preço dos produtos é o custo acumulado durante o processo de transporte e distribuição. No caso de produtos importados, como o trigo produzido na Argentina, o valor final não depende apenas do combustível e do transporte rodoviário. Despesas com serviços, impostos, transbordo, operações aduaneiras e outras etapas da cadeia acabam incorporadas ao preço pago pelo consumidor.
O câmbio também exerce influência nesse processo. Segundo Sergio da Rocha Bastos, a cotação do dólar em um patamar mais estável, na faixa de aproximadamente R$ 5 a R$ 5,20, tem contribuído para melhorar as condições das importações em comparação com períodos em que a moeda norte-americana ultrapassava os R$ 6.
O cenário, portanto, reúne dois movimentos distintos: de um lado, uma produção agropecuária forte, capaz de gerar mais exportações, empregos, investimentos e atividade industrial; de outro, custos financeiros, insumos e logística que ainda limitam a capacidade de o produtor capturar integralmente os ganhos proporcionados pelo aumento da produtividade.
Para Mato Grosso do Sul, a combinação entre recordes de produção, expansão da indústria e melhoria da infraestrutura logística pode representar uma oportunidade de ampliar a participação do Estado no comércio nacional e internacional e fortalecer toda a cadeia econômica ligada ao agronegócio.
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